4 de Out de 2009

No encanto dos teus gestos


Olhos rasgados na suavidade do teu rosto,
mordes os lábios húmidos e intensos,
tudo em ti se articula numa aura de desejo,
desenhas com os gestos os códigos mais secretos...

Não sei o teu nome,
talvez tenhas um nome que tenha nascido antes de ti,
um nome capaz de criar tanta beleza...
Talvez, o teu nome esteja gravado no sonho
mais íntimo de cada homem...

A tua voz é um som que atravessava o ar
causando um arrepio quase sólido...
O teu sorriso é brando e cauteloso,
como se escondesse algo magico...

Impregnas o espaço com o teu cheiro de Mulher,
seduzes com a naturalidade de uma flor,
brilhas com a beleza de uma estrela...

Barão de Campos

1 de Out de 2009

Dançando na noite




Dançavas na noite uma dança sem movimento,

corrias na direcção da madrugada,

em busca de um lugar teu...

palavra após palavra, descobrias um sentido

para manteres os olhos abertos...

O rubor do teu rosto, transparecia surpresa,

como se todas as manhãs

fossem reconhecidamente virgens e virginais...

Melancólica, a palavra suspensa

caminhava para o seu destino último...

O fogo flutuava em formas múltiplas,

indiferente à paisagem do teu verdadeiro ser...

Noite dentro da noite,

a madrugada rompia o seu derradeiro véu,

pausavas a vida, como quem suspende a respiração...

Absurda, a manhã orvalhava,

enquanto as lágrimas espreitavam,

cintilantes na boca do teu olhar...

14 de Set de 2009

Onde estiveres


Entre pensamentos, rostos e lugares,

encontrarás e escutarás vezes sem conta,

silhuetas, vozes, memórias de um tempo

que se cansou da espera nunca esperada...

Inventávamos um tempo sem tempo

entre dois espaços separados por alguma coisa

que se travestia de eternidade...

Vazios os teus olhos olham, distantes,

aqueles pequenos e imensos nadas,

que sabiam a tudo...

Lugares onde as mãos falavam, sussurravam,

por vezes choravam...

Longe, os horizontes parecem clamar

por um novo abraço...

Entre a neblina dos caminhos,

nascem formas perdidas,

ouvem-se canções, melodias, lamentos, múrmurios...

Indiferentes, as noites dobram-se,

as árvores espreguiçam-se e entre uma lágrima

e um sorriso, a lua preenche a invisibilidade dos nossos lábios...

Na magia dos lugares sem nome,

pairam os nossos fantasmas,

entrelaçados numa dança eterna...

Húmidos, os bosques, pululam de vida,

longínquos, os sons das fadas e dos gnomos,

misturam-se com vestígios da presença ausente

dos nossos corpos...

Na memória dos ventos, ondulam as últimas palavras,

espelhos do tempo, molduras com imagens serpenteando,

opacas, nubladas, encarceradas...

Algures, estamos nós...
Barão de Campos

11 de Set de 2009

Doce e quente


Lábios de vermelho espesso, húmidos e abertos,

olhar doce e lascivo…

Vértices, movimentos vincados,

gemidos latentes num arfar escaldante…

Seios desnudados e erectos,

mamilos de sabor corrosivo…

Ondular de ancas,

vislumbre de coxas abertas,

numa paisagem de Mulher desejo…

6 de Set de 2009

Penumbras afagadas



Dor, prazer em forma de arpão,

movimento que os gestos toleram

na loucura dos gemidos

que as palavras não soletram...

...ruivas, numa tonalidade

que dissimula o negro do olhar...

Soltas as gotas aprisionadas,

penumbras afagadas

em timbres mudos...

Arrancas nos silêncios espaçados,

ritmos lancinantes,

orfãos da razão e do tempo...

Compões melodias sem tom,

em desarmonias folheadas,

cobertas com espuma

cheirando a maresia...

Compulsivamente, prazer e ânsia,

abrigados na tua alma,

mágoa inominada,

lugar pálido e opaco,

singelo vestígio dos teus olhos

esbeltos, indefinidos,

talvez amantes amados...

28 de Ago de 2009

Doce manhã


Doce, a manhã iluminava o teu rosto,

combinando de forma harmoniosa

as mais belas tonalidades…

Nos teus olhos primaveris,

desfilavam as mais belas paisagens…

lugares de desejo e ternura,

na profundeza rosácea das interdições…

Naquele tempo sem tempo,

a eternidade estava ali,

nos longos beijos onde as línguas

serpenteavam a dança do amor…

Havia no tempo e no espaço o encanto

das descobertas e o fervor das conquistas…

Naquele tempo, as pequeninas coisas,

eram as mais belas odisseias…

Naquele tempo sem tempo,

havia um lugar secreto no universo

onde o Amor acontecia…

Naquele tempo sem tempo,

amar-te era a viagem marcada

sem regresso…

o desejo quente e húmido,

o estontear entrelaçado,

do Amor…

Naquele tempo sem tempo

o Amor era a paisagem

mais bela…

Naquele tempo sem tempo

Um beijo tinha o poder

da criação universal…

25 de Ago de 2009

Se...


Se pudesse voltar a tocar os teus cabelos côr de vento…

Se pudesse deitar-me sobre o teu corpo aberto e quente….

Se pudesse beijar os teus lábios espessos…

Se pudesse sentir-te minha por um só momento…

Se… Se…

Se tudo tivesse acontecido, nada ficaria do inobtido….

… e tu… não significarias mais nada…

nem lembrança nem desejo,

apenas cansaço…

19 de Ago de 2009

Na espuma do tempo


Recordo-te na espuma do tempo,
recordo-te no acenar espesso
das palavras sufocadas...
Recordo-te na alegria breve...

Recordo-te no espelho quebrado
das imagens feitas de vapor...
Recordo-te na fragilidade
das promessas de amor...

Recordo-te na hora morta de mim,
na ilusão que se acentua...
Recordo-te na imposição
dos instantes vazios...

Recordo-te na imensa tarde das avenidas,
recordo-te nas noites à beira mar...
Recordo-te nas rochas,
repletas do teu luar...

31 de Jul de 2009

Alma de gelo




Mãos gretadas pelo frio,
expostas à luz incandescente
da memória aberta no peito
já gasto da vida...

Olhar firme de ferro,
comoção da inocência ultrajada...
Rasgos de sol à deriva,
gente morta de tanto morrer...

Cânticos desfeitos na areia húmida,
escassa e breve a melodia...
Vozes ondas clamando mar,
soluçando no seu navegar...

Granízo da alma em tapetes de lama,
artérias de fogo no vulcão do tempo,
cinzas de lágrimas e de lamento
na chama da vida e do vento...

Amanhecer...


Amanhecer sem tempo,
lugar de chuva
e de ontem...
Memória perdida e louca
na fronteira rasgada...

Distância no coração,
lâmina cravada no pensamento...
Uma constante oração,
orada em sofrimento...

Deixem a morte
submersa no bosque,
não a obriguem
a mostrar-se


Adeus poesia...


Sei que partiste p'ra longe
sem me avisar...
Deixáste a indiferença
em teu lugar...
Ficou a sombra de ti,
gravada nas paredes da alma...
Ficou a mágoa
desta dor habituada...
Ficou mais longe a distância,
perdida na manhã sem vida...
Sei que partiste p'ra longe
sem me avisar...
Ficou a esperança
a amanhecer o teu voltar...

Nada...


Nada...
Apenas o silêncio branco das palavras
impronunciáveis...
Nada...
Apenas o ontem ruminado
na negação...
Nada...
Apenas os dias de mim já mortos
na queda delirante...
Nada...
Apenas a chuva aberta
nas águas estagnadas...
Nada...
Apenas o amargo e neutro
do meu pulsar...
Nada...
Apenas esta loucura latente,
nesta vontade de não ser...

Na tua indiferença...


Morrer nas palavras
o som desesperado da mente,
procurar nos lugares mais desertos
a humidade seca dos teus lábios
intolerantes e anacrónicamente lascivos
na pretensão da indiferença,
imponentes, hirtos e esmagadoramente mortíferos
no acto de sorver a vida e o prazer que a inunda...

Lábios ondulantes na lúxuria estridente,
selando os contornos de um amanhã disforme,
quase inerte, ainda que bífido e venenoso...
Sinto a desventura lenta da saliva corrosiva,
sulcando hemorrágicamente a alma,
num beijo ferindo um desejo por cumprir...

Cerro os dentes, silencio a mente,
desligo o olhar, quebrando o encanto
num gesto de presa...

Procuro nas tuas mãos um sinal,
um movimento de cúmplicidade...
Alguma coisa que permaneça
na memória da memória sem nome...

19 de Mai de 2009

Manuscrito...


Lembro-me do tempo em que se escreviam cartas,
do tempo em que se aguardava ansiosamente a vinda do carteiro...
Pegava na carta, olháva o remetente e conseguia sentir
uma presença, um gesto, um, sorriso ou uma lágrima...

A cor e o cheiro revelavam lugares, paisagens, sentimentos,
o envelope amarrotado, talvez um pouco encardido,
revelava a sua história...

Cuidadosamente, para não rasgar a carta,
abria o envelope, retirava a missiva e iniciava
a longa viagem...

Cada letra, frase ou rasura denunciava
as etapas do pensamento...

No final, buscava algo mais, uma nota de rodapé,
um vestígio de alguma coisa que desejavas ter dito
e não o disseste...

Naquela noite e nas seguintes, 
a tua carta era todo o meu património,
um testemunho da minha e da tua existência...

Na manhã seguinte, pegava na caneta,
olhava o papel como se lhe imprimisse um desejo,
desenhava os meus sentimentos,
talvez desejos, talvez receios e mágoas profundas...

Num gesto único, dobrava a carta,
colocava-a dentro de um envelope personalizado,
meticulosamente colado, escolhia um selo,
olhava o relógio e corria para o marco do correio...
Olhava em meu redor, certificando-me se alguém me olhava,
colocava a carta na abertura do marco,
tendo o cuidado de escutar o som da  sua queda...

Lembro-me, como era possível manuscrever uma lágrima...



Barão de Campos






14 de Mai de 2009

O último post...


Cansado de procurar nas palavras
o elo perdido,
fixou o olhar vítreo no blogue,
releu cada palavra,
prescrutou cada pensamento,
prosseguiu na indiferença...

Do fundo da alma, 
sabia que este seria o seu último post,
como quem adivinha uma partida,
numa despedida, contida gota...
Suspendeu a respiração,
reviveu memórias sem título,
locais irreais, sonhos desfocados...
procurou resistir mais uma palavra,
uma frase, uma lágrima que fosse...

Entardecia, a mente nublava-se,
faltava apenas quebrar a última fronteira,
reconhecer a inutilidade das palavras...
Partir sem destino,
entrar dentro delas
e sentir-lhes o vazio...



13 de Mai de 2009

Quando a memória partir...


Não sei quanto tempo nos resta,
quantos dias terei para te olhar,
beijar, tocar ou apenas sentir a tua presença...
Não sei durante quanto tempo
vamos adormecer de mãos dadas...
Não sei... cada dia parece mais breve...
Sabes, do fundo das nossas lágrimas,
ambos sabemos que um dia sonhámos
muitos dos sonhos vividos...
Sabes, sempre vi no verde dos teus olhos,
a eternidade que o teu corpo te nega,
sempre vi no teu sorriso o medo da dôr que suportas...
Hoje, adormeço no cansaço das lágrimas
que não poderemos chorar juntos...
Não sei como poderei chorar-te
sem te ter junto a mim...
Sabes, quando penso nisso,
continuo a acreditar que ficas
depois de partir...
Queria pronunciar o teu nome,
para que ninguém te confunda,
assinar e reconhecer o nosso amor,
para que ninguém se faça passar por ti...
Queria ter a certeza que depois de Nós,
a memória não partísse nunca...
Queria acreditar que ao pensar-te,
algures, escutarias o meu apelo.. 
Durante todos estes anos o nosso amor foi único,
ameaçado, perigoso, eterno e breve...
Profundo, puro e belo como o nosso filho...
Um Milagre!


4 de Abr de 2009

Dentro do Medo


Agarro as palavras, arrasto-lhes o sentido,

pronuncio-as prudentemente,

silencio-lhes a aspereza e o mêdo,

pego-lhes de rompante,

como quem apanha uma serpente...

Viscosas, enrolam-se, estrangulam-me,

numa roda que gira entrecurtada

por silêncios que ruminam

sem propósito ou destino...

Rumo em direcção aos lugares

famintos de dôr e amor,

carentes de vida e de sonho...

Debruço-me donde vislumbrava

horizontes e marés...

Estemeço na vertigem,

irmã do abandono...

Olho-te no caminho da memória,

revejo a tua expressão,

sem vida...

Assusto-me nas palavras que não digo,

como quem ama em segredo...

Adormeço na tarde ainda quente

da tua presença colorida...

Adivinho a manhã que se recusa a nascer,

olhando a madrugada morta...

Abraço o vazio, num gesto sem nexo,

amarro memórias,

imagens, lugares, paisagens...

Recolho o último vestígio,

como quem emoldura

a sua própria imagem...

Ondulo o espanto no desencanto

do canto...

Navego na espuma dos dias

em busca de um navio fantasma...



Barão de Campos

31 de Mar de 2009

Palavras Mortas...


Procuro nas palavras o pulsar do coração,

o sentir pleno e livre da alma...

Procuro nas palavras uma voz, um pensamento

que as pronuncie,pense ou declame...

Alguém que lhes dê a vida...


Escritas, as palavras partem,

partem em busca de ti...

Abandonadas, navegam,

aguardando a tua chegada...


Amor, paixão,encanto,memória,

saudade, abraço ou beijo...




22 de Mar de 2009

A armadilha do tempo...


Hoje, acordei fora de tempo,

olhei-te olhos nos olhos e senti algo estranho,

a tua tonalidade rosada havia desaparecido,

o brilho verde dos teus olhos,

já não continha a promessa de eternidade...


Assustado, ergui-me num golpe de desespero,

olhei-me no espelho e não me reconheci...

Vi a tonalidade grisalha, quase branco absoluto,

chorei em soluço mascarado,

procurei mil razões para sentir esperança,

procurei no calor dos teus lábios

as respostas que não queria ter...


Entardeci, sem que a materialidade dos objectos,

fosse capaz de distrair-me deste sentir lúcido

e absolutamente real...


Senti a consciência afiada,

um sentir profundamente triste...

Apoderou-se de mim a certeza,

abrupta e cruel da morte...




18 de Mar de 2009

Inexplicável...


Os mesmos lugares, a coincidência da sobreposição

dos nossos rastos...

Talvez as mesmas palavras,

os mesmos gestos...

Como se fosse possível duplicar factos,

gestos, palavras, lágrimas ou passos...


Estranhamente, alguém como nós,

ou a sombra dos nossos pensamentos,

continua a divagar pelos mesmos lugares,

como se tivessemos continuado

depois de ter partido...


Vozes, sons inominados, paisagens,

lugares, espaços e tempos,

movimentos e luminosidade,

abraços e beijos...


Algures, há um espaço tempo continuado,

onde o inexplicável habita,

ressuscitando vidas paralelas...


Algures, algo aconteceu na memória

do tempo, na fúria do mar,

confundiu mar e amar,

vento e lamento,

fim e princípio...


Algures, estamos vivos...

15 de Mar de 2009

Madrugadas sem nome...


Podia apenas tratar-te por madrugada,

esquecer o teu verdadeiro nome,

deixar partir o sabor dos teus lábios,

perder o teu rosto, lentamente no horizonte...


Podia, apenas lembrar-me do teu anonimato,

dos teus olhos sem ontem nem amanhã,

dos gestos saturados e repetidos...


Podia, nesta crueldade faminta

de devorar as memórias,

inventar-te um nome, uma morada,

talvez uma vida...


Podia, consumir-me na imensidão dos sentidos,

fazer dos meus olhos o teu olhar,

dos meus lábios o teu beijar...


Podia tentar tudo num último momento,

inventar-te um coração e uma alma

para poderes amar...


Podia abraçar-te e acreditar que sentias,

podia gritar o teu nome na direcção da multidão,

podia procurar-te em todos os lugares,

podia lembrar-te numa última visão,

pensar-te apenas e soltar um som,

talvez um nome,

Madrugada...

25 de Fev de 2009

Morrer em cada palavra...


Palavra após palavra, gestos após gestos,

gasto horizontes em futuros já passados,

como se o tempo fosse uma folha espezinhada,

lida e relida, escrita e apagada vezes incontáveis..

Olho-me sem me ver e constato a evidência

desta forma incompreenssível de sustentar a ausência...

Procura alguma sombra, um vulto, um aceno,

ou apenas uma ilusão capaz de me adiar um pouco mais...

Receio que este seja o meu último pântano,

relembrando oceanos infinitos onde naufragar...

18 de Jan de 2009

Palavras Mágicas...


Nascem e vivem dentro de nós,

escondidas em florestas de silêncio,

permanecendo assim, presas no corpo e na alma...

Palavras que não tivemos a coragem de pronunciar

no tempo e no espaço próprio...

Palavras ditas, palavras silenciadas,

a diferença abismal entre o som e o silêncio...

Palavras cansadas de não acontecerem nunca,

palavras agitando-se num grito inaudível...

Palavras que o tempo calou,

palavras que podiam ter rasgado horizontes,

palavras feridas que se debatem no esboço de um som...

Palavras que um dia talvez tenhas sonhado escutar,

palavras que não ousamos pronunciar...

Palavras... apenas palavras...

9 de Jan de 2009

Em algum lugar...



A Madrugada envelhecia no teu olhar,
enquanto a brisa te acariciava os cabelos...
Naquele tempo ilusionista da eternidade,
pousavas o rosto no meu peito,
num gesto que tinha o valor das promessas...

Olhavas-me nos olhos e acreditavas num amanhã,
feito de alguma coisa que nos pertencesse...
Abraçavas-me e o teu silêncio encerrava a resposta...

Abraçavas a ausência, como se fosse possível,
calar o seu grito, o seu lamento, a sua morte...

25 de Mai de 2008

Tinta Invisível


Queria ser capaz de pintar no horizonte o vermelho dos teus lábios combinado com a esperança verde cálida dos teus olhos...

Queria ter a coragem de somar madrugadas sem subtrair os dias...

Queria caminhar sem ter a consciência dos meus passos...

Queria acontecer nas palavras e nas coisas, queria agarrar a tarde no seu equinócio...

Queria desenhar uma órbita onde o nosso percurso se confundisse com a eternidade...

Queria estar presente depois de partir e poder falar da minha inexistência...

Queria inventar uma possibilidade de contrair num conceito a possibilidade de oferecer uma chance ao impossível, negando-o no absoluto da sua essência...

Cântico Final


Contemplo o Agora numa agonia confusa e continuada... Sinto e pressinto o silêncio do vazio galopando na minha direcção... Sei que as palavras e os apelos são vagos e imprecisos...

Olho-te dentro dos olhos e sinto-te no teu cansaço e dôr, adivinho na tua presença os sinais que não quero ver...

Não sei se o amanhã é amanhã ou depois de amanhã, mas sinto-o numa brevidade cortante...

Procuro nas estrelas o brilho de um sonho que nos permita sobreviver, como se um beijo e um abraço forte fossem a força que ainda nos resta...

19 de Mai de 2008

...Dentro dos teus olhos...


Quando te olho bem dentro do olhar, sinto-te no teu mais profundo chorar...

Olho-te e vislumbro as sombras do teu mundo tão próximo e distante...

Amanheces em mim as Primaveras que o Tempo deixou de pintar,

repousas dentro de mim a dimensão que os Sonhos inventam para calar o medo...

Sei que a manhã tem a luz que o vento pode apagar, como se a vida fosse a chama breve de uma vela...

Dentro dos teus olhos navego nas suas lágrimas, como um naufrago em busca da sua ilha...

17 de Mai de 2008

Acreditar...


Procuro ler no tempo os segredos que nos darão todas as respostas, procuro uma pista, uma sombra, um rascunho, onde possa reconhecer o nosso amanhã...

Quero ter a certeza que ficarás a meu lado enquanto conseguir lembrar-me de Nós...

Preciso de acreditar no nosso Milagre... Preciso de ti...

Adormecer junto ao teu peito...


Húmidos, os teus lábios escalavam os meus, arrastando consigo as marcas rosáceas da escalada... Percorriamos os nossos corpos àvidos e ofegantes... De vez em quando, abria os meus olhos e vibrava com o Amor desenhado no teu rosto rosado, ostentando o brilho do verde paisagem dos teus...

Sei que o teu olhar acorda no meu, a doçura do teu encanto... Sei que a Madrugada quase apagou o seu brilho, mas o calor do nosso Amor Eterno gerou o Milagre de mais um Amanhecer...

Recordação sem Memória...


Existe em mim a sombra vaga e breve dos meus olhos atravessando a neblina dos teus...

Sei que a memória se assemelhava ao ondular de uma lágima escorrendo na face como quem desce uma colina na direcção do mar... Talvez a saudade também tivesse o sabor a sal...

Não sei se sinto saudades de mim ou dos meus gestos inocentes, cândidos e perfumados com os aromas inesperados dos locais sem tempo...

Nascia em cada manhã um sonho sem contornos, como se a luz e a escuridão ainda fossem irmãs, havia dentro do meu coração uma chama que ainda acendia o olhar....

Naqueles dias inconscientes, a infinitude do Ser, acontecia de forma inominada...

Naquelas noites distantes, as vozes que rompiam o silêncio, tinham o calor de um abraço!

22 de Abr de 2008

Na Curva do Tempo!


As imagens, os sons, os lugares, tudo se volatiliza... Persiste a memória vaga e exasperante, próxima da inexistência...

As lágrimas esqueceram a nitídez da razão do seu chorar, chegam e partem, distantes e amorfas...

Neste amanhecer onde as palavras se esqueceram do sentido, o mêdo e a angústia pesada, calcinaram o sonho, como quem retira a última esperança a um moribundo...

Esta manhã quase nocturna encerra na sua densidade, o indizível que há dentro de nós, como se uma palavra pudesse evitar a implosão de todo o nosso ser...

Cada olhar acentua o vazio deste tempo que não sendo meu, ainda é a única evidência que me liga à terra...

Não sei se estes vestígios de mim, ainda suportam a prova da minha identidade, ou se a sua linha ténue que os suporta, não será apenas ilusória...

Talvez, cada palavra ou gesto se tenha tornado absolutamente inútil e absurdo, talvez, este acto de ensaiar a escrita como quem ainda procura a eternidade, não passe de um grito sem som, onde a minha alma se contorce...

21 de Fev de 2008

Nos Últimos Momentos...




Nos últimos momentos, talvez procure o teu calor, a tua ternura, ou apenas decida abandonar-me na solidão solene do último olhar...
Nos últimos momentos, é provável que a fragilidade seja próxima da orfandade, é natural que te pegue na mão para que a partida seja menos dolorosa...
Receio a aflição dos instantes derradeiros, sabendo-os finais...
A solidão comporta uma forma muito especial de ante-câmara da morte...
Confesso que não deveria estar a falar da morte, da minha morte, quando a vida ainda me pode surpreender...
Não sei, a tarde caiu densa e sufocou o meu coração e a minha alma magoada de uma dôr indizível...

17 de Fev de 2008

Algures...



Não sei se é tarde em mim ou se a madrugada insiste em romper o véu deste real que me separa e corroi...
Não sei se é tarde ou manhã ou se ainda me resta algum tempo mais...
Não sei a côr dos teus lábios nem se os consigo tingir com o cansaço dos meus...
Não sei se as lágrimas podem ser eternas, nem se a angústia morre nos meus gestos de não acontecer...
Desconheço o sabor das palavras, a forma de suavizar o abismo... Nada resiste ao ondular indistinto do pensamento...
Nenhuma palavra, gesto ou grito sobreviverá...

10 de Fev de 2008

Amar-te em Silêncio...





Percorro o teu corpo no silêncio mais profundo, evitando acordar o tempo...

Arde em nós a lava dos vulcões primeiros, tal como o toque dos nossos lábios...

Sinto-te na manhã de todas as manhãs, única no amanhecer suave e rosa...

Amo-te sem precisar de articular uma palavra...

Noite mortífera...





Cavalguei na noite as vestes do guerreiro perdido,

senti a lança da escuridão apertar-me o peito num golpe final...

Alheio à luz, percorri a escuridão na angústia perfumada de morte...


Nada nem ninguém me pode libertar,

a noite adensa-se dentro de mim,

toma conta de todo o meu Ser...


Incapaz de libertar uma lágrima,

a Noite comove-me a Alma de uma dança mortífera...

Queria Olhar-te...





Queria olhar-te uma última vez, olhar-te na imensidão da tua autenticidade...

Queria olhar-te e ver a transparência dos teus desejos...

Queria saber-te nas palavras omitidas, nas expressões ocultas,

Queria navegar-te e sentir-te em mim paisagem,

Queria inventar um beijo com memória eterna,

Queria acreditar que a melodia da tua voz pode voltar a surgir no sopro breve do vento...

Queria pensar-te e acontecer-te num lugar onde o tempo e o espaço se abraçam na eternidade...

Queria ser algo mais, algo inesperado...

Queria ser a palavra não pronunciada, o gesto por cumprir...

Ser-me na Insconsciência consciente do Ser...

7 de Fev de 2008

No último momento...









Não sei se é a saudade ou uma memória vaga,
sem contornos nem parâmetros definidos...
Não sei... Por instantes, fui sobressaltado por uma imagem grandiosa de um lugar impossível...
Vislumbrei a silhueta do teu corpo na contraluz pálida do anoitecer...
Não sei se eras tu ou a imagem que criei de tanto te imaginar na tela branca e negra...
Não sei se desejava pintar o teu corpo ou apenas esboçar a tua Alma...
Não sei... Senti sempre, que os teus contornos do corpo e da alma não se fixariam nunca...
Amadureci o branco da tela, coloquei-o numa parede e consegui criar a tua ausência...

30 de Jan de 2008

Palavras sem Tempo...







Não sei a côr do caminho, nem sequer conheço o som dos nossos passos,

sinto que a memória deixou de o ser,

hoje, todas as emoções, lugares, sons,

não passam de uma invenção necessária...

Memórias sem Memória...


1 de Jan de 2008

Uma Luz na Tarde Moribunda...





Sem vida, a tarde fria e negra, acumulava-se nas bermas dum tempo que não reconheço...

Inesperadamente, ondulante nos gestos, sensual e anónima, caminhavas lado a lado com a tarde disforme e lânguida no seu incansável verberar de agonia... A doçura do teu rosto quente e belo, emprestava à tarde mais alguns instantes de Vida...

Breve, a tua presença desfez-se no crescendo de escuridão que absorvia o devaneio da esperança, beleza e imaginário, numa síntese a que poder-se-ia apelidar de Vida...

12 de Dez de 2007

...Não sei como te definir...






Ardente, o teu corpo contorcia-se de prazer,

na loucura que a linha do teu corpo desenhava...

Soltavas os cabelos e mordias os lábios

num gemido agudo e selvagem...

Acordavas nos movimentos

a côr vermelha do extase...

Dançavas uma dança sem nome

num corpo aberto ao imaginário...

10 de Nov de 2007

Mulher Paisagem...










Queria deixar de imaginar os teus lábios de boneca pintada, vermelhos e quentes...

Queria que a tua imagem de mulher com meias pretas não me tolhesse a Alma...

Queria ser capaz de entender a vulgaridade da tua Paisagem de Mulher decorada com os enfeites do prazer sem retorno...

Queria saber o teu nome, mesmo que nunca te olhásse...

Queria acreditar na ilusão que provocas no orgasmo que seduzes...

Queria entrar dentro de ti para afugentar a Morte...

3 de Nov de 2007

...Nas tuas lágrimas...





Quando choras, as tuas lágrimas atravessam a minha alma e desaguam nos meus olhos cansados e doridos... Os nossos corações abraçam-se no silêncio ensurdecedor que os consome...

Revejo em ti a criança que um dia teve o direito de sonhar todos os sonhos, recordo as côres do teu sorriso num rosto onde o verde pérola do teu olhar tinha a força de todas as eternidades...

Lembro-me de ti na loucura quente dos momentos em que te esperava e tu acontecias num milagre sempre renovado... A magia dos teus lábios doces no sabor inocente dos meus, a permanência sem tempo no calor que derretia todas as muralhas...

Lembro-me de te Amar assim, sem imaginar que o destino que há nas coisas, premeditava o modo e o tempo do sofrimento...

1 de Nov de 2007

NO MEU OLHAR...





Queria olhar-me nos olhos e sentir a doçura quente e terna do teu rosto, mesmo sabendo que o posso ter inventado... Queria sentir a fome dos teus lábios aveludados e húmidos, mesmo que nunca tenham existido...

Queria ser o antes e o depois sem o durante, queria ser capaz de pintar a noite sem ofuscar as estrelas... Queria materializar a imagem de alguém que apenas desejo, dar-lhe forma e vida... Queria ser-me nem que fosse por um instante...

27 de Out de 2007

Memória...




Sinto que o tempo todo caíu hoje dentro de mim... como se o tempo que passou, tivesse conseguido passar-me ao lado... Por vezes, a mente parece explodir num sofrimento atroz, ao tentar lembrar acontecimentos, lugares e tempos onde "supostamente" vivi...

...Memórias perdidas, lugares infindáveis, crepúsculos e amanheceres... Não sei o que aconteceu... Sinto que algo me impede de recordar... Numa tortura sem nome, vou prosseguindo o meu caminho sem encontrar as minhas pegadas...


Não me Esqueças...






Quando te olhares no espelho da memória, olha com os olhos da alma e repara, repara na imagem daquelas crianças... continuam lá, naquele tempo onde as abandonámos, oiço-as a chorar num lamento sem tempo...
Lembro-me do tempo em que existimos fora do tempo... Lembro-me do nosso olhar sem sombras nem distância...
Naquele tempo, até o nosso sofrimento parecia ter saído de um livro de contos mágicos...
Hoje a ausência é eterna...

26 de Out de 2007

Escrevendo o Amor...






Escrevo o Amor no vestígio dos teus passos,

olho-te no espaço, enquanto a tua ausência ainda o é...

Amanhã não existirão marcas, odores ou sensações

presas entre dois tempos...


Amanhã o ontem será apenas memória,

a memória que fica quando tudo parte...

Amanhã, não serei capaz de decifrar o teu rosto,

ou amadurecer a tua expressão em mim...


Amanhã... Será um nada, pouco menos nada,

que o depois de amanhã...


14 de Out de 2007

...Paisagens Nuas...




Anónima e Amorfa, a tarde insiste em adormecer diante dos meus olhos cansados de não adormecer... Vai longe o tempo em que o Tempo e o Espaço se fundiram numa variável sem nome...
Neste lugar de um Tempo que não era o mesmo, aconteceram paisagens por preencher, espaços sem nome, onde o possível e o imaginário eram um só e estavam presentes em simultâneo...
Lembro-me das sensações e das fronteiras quebradas...
...Corre densa a memória esgotada, moribunda de si mesma, dançando na consciência dos seus últimos momentos...

18 de Set de 2007

Amanhece...


Amanhece no teu olhar
o mel que o torna tão doce...
Amanhece em ti a segunda natureza,
povoando uma Alma sem nome e sem esperança...
Lembras-me palavras soltas na tarde lenta do devaneio
inconsistente e perdido...
Lembras-me Paisagens mudas,
lugares proibidos.
Gestos sem nome...

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